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domingo, 14 de novembro de 2010

MULHER COMANDA BATALHÃO DA BRIGADA MILITAR DO RS.











Donna | 14/11/2010 | 18h30min

Mulher no comando: Nádia Gerhard é a pioneira no Estado à frente de um batalhão de polícia militar
Letícia Mendes | leticia.mendes@zerohora.com.br

A mulher que ostenta medalhas no peito e faz com que os policias se movam apressados para lhe prestar continência é a mesma que não dispensa o reforço de um sapato de salto e se considera uma leoa na hora de defender os filhos. Há três anos, com sorriso constante, mas voz firme, a major Nádia Rodrigues Silveira Gerhard, 42 anos, comanda o 40º Batalhão de Polícia Militar (BPM) em Estrela.

O BPM que recebeu a primeira comandante no Estado ganhou toques femininos. Salas, móveis e cores novas estão por todos os lados. Mas a major também precisou se adaptar ao novo posto. Casada e mãe de Matheus e Thiago, teve que aprender a conciliar a responsabilidade do trabalho com a família. A agenda apertada, não a impediu de ainda se tornar mãe de Arthur, hoje com dois anos.

Quem conhece a major se surpreende com a disposição contagiante da morena. Nádia é daquelas mulheres que não param um segundo.

— Se não fosse organizada não fazia a metade do que faço. Mas se perco minha agenda acho que não sei nem voltar para casa — brinca.

Incansável, ela se dedica ao trabalho mesmo nas horas de folga. Os dois celulares, que tocam de cinco em cinco minutos, estão sempre ao alcance das mãos. Mas isso não quer dizer que a sua vida é só trabalho.

Em casa, gosta de curtir a sua pequena tropa mirim junto com o marido, o capitão Ricardo Accioly. Educar três meninos não é fácil. Mas se tivesse mais tempo para se dedicar a eles, encheria a casa de filhos. Apaixonada por crianças, a porto-alegrense, formada em Letras e com especialização em Educação Infantil, já foi professora. Quando aposentar a farda que veste com orgulho, pretende voltar a dar aulas.

— Gosto dessa agitação deles — diz.

Nádia não pode ser definida como uma mulher vaidosa. O corpo invejável ela atribui a alguma ajuda divina. Adora comer, até já tentou, mas descobriu que odeia academia, dispensa a maquiagem — exceto a definitiva nos olhos para evitar os retoques —, vive de cabelos presos e não gosta de trocar de brincos, muito menos de bolsa.

— Tenho uma bolsa preta linda, quando precisar compro outra preta linda e pronto — diverte-se.

Se a bolsa é sempre a mesma, o sapato não. A sua maior vaidade está nos pés. Nádia tem obsessão por saltos altíssimos.

— É assim que me sinto à vontade — diz.

Ela já perdeu as contas de quantos pares tem, só sabe que não cabem mais na sapateira de 70 lugares. Mas ela também gosta de conforto. Tanto para andar descalça pela casa, como para vestir uma calça boyfriend e aproveitar o sol com os filhos e Floquinho, um shih-tzu de três anos que ela adora mimar. As fotografias que decoram a parede da sala são outra paixão.

Em sua lista de atividades ela ainda tem espaço para as decorações, em especial as de Natal. A cada ano papais noéis e coelhinhos se multiplicam pela casa. Nádia ama festas, desde que comande a organização. O marido, que entrega o hobby da mulher, já foi vítima de sua criatividade muitas vezes. Todos os anos ele sabe que vai ganhar uma festa surpresa e ainda assim é surpreendido.

— Já fiz ele ir de traje a rigor a uma festa e quando chegamos lá estavam todos com roupas coloridas de verão. Era uma festa surpresa para ele com o tema do Havaí — conta entre risos.

Quando não têm aniversários, inventa motivos para poder lotar a casa de amigos. Até degustação de café já foi razão para festa. Com seu jeito bem-humorado e falante, como boa geminiana, Nádia é requisitada nos eventos da região. Seja a mãe, que sobe todos os anos na passarela dos desfiles de moda do colégio dos filhos, ou a major que já se aventurou em declamar para uma cidade inteira, com direito a gaiteiro para acompanhar.

Longe do preconceito

A farda sóbria e os coturnos pouco confortáveis não foram novidades para a professora de educação infantil. Apesar de ser a primeira mulher da família a ingressar na Brigada Militar, há 23 anos, Nádia cresceu em meio aos brigadianos. Sempre teve pai, tios e primos no policiamento.

Ser aprovada no concurso para oficial não foi fácil. Para a garota de 20 anos correr 12 minutos, fazer barras e flexões era algo quase impossível. Se não fosse o pai, Rubens Silveira, já falecido, talvez ela não tivesse chegado lá.

— Ele treinava comigo, me dava força o tempo todo — lembra.

O esforço hoje é recompensado. Para quem pensa que o preconceito pode ter sido um desafio na carreira, ela garante que não.

— Acho que isso se deve muito ao teu comportamento, nunca me senti assim, ao contrário, hoje tenho o reconhecimento do meu batalhão.

No mês de setembro, o BPM chegou à segunda colocação no ranking de produtividade da Brigada Militar. O marido, que se derrete em elogios, afirma que os bons resultados se devem ao fato dela ser mulher.

— Ela não comanda de cima para baixo, mas do centro. A mulher é mais aberta ao diálogo, ela sugere ideias, não impõe — reflete Accioly.

Ideias não faltam para Nádia. No comando, ela já criou comendas anuais, gincanas e até um projeto para integrar as mulheres da comunidade com a polícia.

—Elas são as multiplicadoras que podem ajudar a aproximar a polícia da população — destaca.

A sala de Nádia, que ela tanto ama, revela um pouco da comandante: uma mulher cheia de contrastes. As fotos e os desenhos dos filhos dividem espaço com as bandeiras dos 11 municípios que ela pretende comandar por muito tempo.


DONNA ZH | Casa Zero Hora/Santa Cruz do Sul